COZINHA PORTUGUESA
UM TRATADO DA COZINHA
PORTUGUESA DO SÉCULO XV
[Coleção de receitas,
algumas bastante originais, para o preparo das mais variadas iguarias]
PRATOS DE CARNE
PASTÉIS DE CARNE
Tomem carneiro, alcatra,
ou lombo de porco fresco, e uma fatia de toucinho de fumeiro, para dar gosto.
Piquem tudo muito bem. Com cravo, açafrão, pimenta, gengibre, coentro seco,
caldo de limão ou de agraço, e uma colher de manteiga faz-se o refogado, ao
qual se deitam a carne e o toucinho picados. Cozinha-se em fogo brando. Depois
de pronto deixa-se esfriar e fazem-se os pastéis, bem recheados; pincele-os com
gema de ovo e leve-os a assar em forno quente. Do mesmo modo se fazem os
pastéis de galinha. Os pastéis ficarão mais gostosos, se recheados com carne
crua.
TIGELADA DE PERDIZ
Parta-se em pedaços uma
perdiz mal assada. À parte, numa caçarola, prepara-se um refogado com azeite ou
manteiga, cebola picada, cravo, pimenta e açafrão. Passem-se os pedaços da
perdiz na farinha de trigo e em seguida arrumem-se na panela, onde já está o
refogado. Toma-se vinagre misturado com água, e deita-se essa mistura na
panela, onde já está a perdiz, de modo que atinja o meio do recipiente. Sal a
gosto. Leva-se a cozinhar em fogo brando.
GALINHA MOURISCA
Tome uma galinha crua e
faça-a em pedaços. Em seguida prepara-se um refogado com duas colheres de
manteiga e uma pequena fatia de toucinho. Deita-se dentro a galinha e deixa-a
corar. Cubra-se a galinha com água suficiente para cozê-la, pois não se há de deitar-lhe
outra. Estando a galinha quase cozida, tome-se cebola verde, salsa, coentro e
hortelã, pica-se tudo bem miudinho e deita-se na panela, com um pouco de caldo
de limão. Acabe de cozinhar a galinha muito bem. Tome então fatias de pão e
disponha-as no fundo de uma terrina, e derrame sobre elas a galinha. Cubra com
gemas escalfadas e polvilhe com canela.
GALINHA ALBARDADA
Assa-se uma galinha muito
bem e corta-se em pedaços. Passe então os pedaços em ovo batido e leve-os a
fritar em manteiga. Tome fatias de pão passadas no ovo e frite-as em manteiga,
tal qual a galinha. Passe tudo em açúcar, e arrume numa vasilha, as fatias de
pão no fundo. Polvilhe com açúcar e canela.
PASTÉIS DE TUTANO
Cozinhem uma dúzia de
ovos, de modo que fiquem bem duros. Levem o tutano ao fogo, para uma ligeira
fervura. Em seguida corte tudo bem miudinho, as gemas e o tutano, e misture-os
com açúcar, canela em pó e sal a gosto. Façam a massa de farinha de trigo, com
um pouco de manteiga, e abram-na bem fina. Depois de feitos os pastéis,
fritem-nos na manteiga, envolvendo-os em seguida em açúcar. Polvilhe com açúcar
e canela.
ALFITETE
Façam uma massa fina com
farinha bem peneirada, açúcar e manteiga a gosto, e duas gemas de ovos. Depois
de bem sovada, estendam-na com o rolo, e fritem as panquecas em manteiga. Cozinhem
muito bem a galinha com manteiga, toucinho, carneiro, e bastante tempero.
Depois de bem cozida, desossem a galinha. Em seguida empilhem as panquecas numa
vasilha, entremeadas com açúcar. Derramem por cima a galinha e o caldo em que
foi cozida. Por fim cubram tudo com gemas de ovos escalfados e polvilhem com
açúcar e canela.
RECEITAS DE MORCELAS
Receita nº 1 (Morcela de
Arouca)
Com farinha de rosca,
pinhões, amêndoas em pedaços, gema de ovo, banha de porco derretida, calda de
açúcar, sal, cravo-da-índia, canela em pó e algumas gotas de água-de-flor façam
uma massa e encham com ela as tripas. Em seguida lancem estas na água fervente,
até ficarem duras. Ao cozerem-nas, deem-lhes uns piques com um garfo, para não
estourarem.
Receita nº 2
Piquem miudinho uma arroba
de carne de porco, lombo ou pernas; a seguir envolvam-na num pano bem grosso, e
deixem-na pendurada dentro de um cesto, com um peso em cima, durante três
horas. Misturem 700 gramas de sal fino a 150 gramas de pimenta-do-reino; tirem
a carne de seu repouso e lancem-lhe o seu tempero. Juntem tudo muito bem. Se a
carne for muito magra, adicionem-lhe um pouco de carne gorda. Encham-se as
tripas, e a linguiça estará pronta.
FRANGOS PARA OS HÉCTICOS (tísicos)
Criem separados uma dúzia
de frangos, cujo único alimento consista de titela de cágado, cozida ou cevada:
esse alimento deverá ser sempre fresco. Diariamente cozinhe-se um frango em
pouca água, até desmanchar. Em seguida esprema-se a carne, que saia todo o
suco; coem o caldo e levem-no novamente à panela com uma colher de açúcar
rosado (mascavo). Deixa-se ferver um pouco, coa-se novamente, e estará o caldo
pronto.
RECEITA DOS TUTANOS
Cozinhe-se, em água e sal,
carne de porco bem gorda, tirando-se lhe em seguida toda a carne magra e as peles.
Corta-se então a gordura em pedacinhos, adicionando-lhe, para um arrátel (460
gramas) de gordura, dúzia e meia de gemas de ovos bem duras, em fatias, açúcar
à vontade e canela em pó. Prepara-se uma massa de pastel com farinha de trigo
bem peneirada, manteiga, sal e água-de-flor. Abra-se essa massa com um rolo, e
coloque-lhe seu recheio. Depois de feitos os pastéis, cortem-nos com
carretilha, do feitio que se desejar. Os pastéis serão fritos na manteiga e
passados depois numa calda de açúcar. Polvilhem com açúcar e canela, e cubram
com calda de açúcar e água de flor.
RECEITA DE TORTA
Piquem bem miudinha carne
de carneiro ou de porco, e levem-na a cozinhar com pouca água, um pouco de
açúcar e manteiga. Quase cozida lancem lhe alguns cravos-da-índia. Acabem de
cozê-la e retirem-na do seu caldo. À parte batam uma dúzia de ovos, claras
separadas, adicionando-lhe um pouco de açúcar. Numa frigideira com manteiga bem
quente coloquem a metade dos ovos batidos; deixem-nos tomar consistência, e
derramem por cima a carne cozida; logo que os ovos estiverem corados virem tudo
num prato. Esquente-se, de novo, manteiga na frigideira, colocando-lhe o resto
dos ovos batidos e, por cima, a fritada, tendo o cuidado de não deixar pegar no
fundo. Sirva-se polvilhada com açúcar e canela e borrifada com água-de-flor.
PASTÉIS DE FÍGADO DE
CABRITO
Cozinhem fígado de cabrito
e ovos. Amassem tudo muito bem, dos ovos só as gemas, adicionando à mistura
cravo-da-índia, canela em pó, e açúcar que adoce. A seguir, tomem as tripas do
cabrito, já bem lavadas, cortando-as em pedaços de uns quatro dedos de
comprimento, mais ou menos. Recheiem essas tripas com a mistura acima,
passem-nas pela farinha de trigo e levem-nas a fritar em gordura bem quente,
colocando-as a escorrer, logo após, numa peneira com papel pardo. Por último
façam uma calda em ponto alto e passem por ela os canudinhos, que em seguida
são postos a secar. Sirvam-se polvilhados com canela.
CANUDOS DE OVOS MEXIDOS
Misturem as gemas de ovos
e deitem-nas a cozer em calda rala, sem mexer, para que não se quebrem. Façam
uma massa, bem sovada, de farinha de trigo, manteiga, água-de-flor e uma pitada
de açafrão. Em seguida abram-no com um rolo, como para pastel, façam os canudos
e fritem-nos. Recheiem então os canudos com o doce de ovos já pronto, e passem-nos
pela calda de açúcar. Polvilhem com açúcar e canela.
LAMPREIA
Limpem a lampreia em água
quente, tirando-lhe as vísceras e dando-lhe golpes na carne. Coloquem-na
enrolada, numa tigela, e temperem-na com azeite, coentro, salsa, cebola ralada
e sal. Deixem-na em repouso por algum tempo, levando-a em seguida ao fogo. Depois
de bem refogada, deitem-lhe um pouco d’água com vinagre, cravo, pimenta,
açafrão e gengibre. Cozinhem em fogo lento.
PICADINHO DE CARNE DE VACA
Lavem carne de vaca bem
macia, e piquem-na bem miudinha. A seguir adicionem-lhe cravo, açafrão, pimenta,
gengibre, cheiro-verde bem cortadinho, cebola batida, vinagre e sal. Refoguem
tudo no azeite, e deixem cozinhar até secar a água. Sirvam sobre fatias de pão.
GALINHA DESFIADA
Limpem uma galinha, e
cortem-na em picadinhos. Em seguida levem-na a cozer com toucinho picado,
cheiro-verde, e água à vontade. Ao levantar fervura deitem-lhe vinagre e sal.
Depois de cozida, que fique com pouco caldo, tirem-lhe todos os ossos, e
desfiem-na. Levem a panela novamente ao fogo, adicionando-lhe farinha de rosca.
Deixem ferver tudo até engrossar; quebrem dentro 4 gemas e 2 claras; continua-se
mexendo; ajuntem então um pouco de cominho, pimenta-do-reino, açafrão,
cravo-da-índia e uma colher de banha de porco ou gordura de boi. Sirva-se com
canela por cima.
PASTÉIS DE POMBINHOS
Tomem os pombinhos já
limpos e deem-lhes uns cortes na carne, colocando dentro fatias de toucinho.
Temperem-nos a gosto, levando-os ao fogo, a cozer. Façam a massa de pastelão e
coloquem dentro os pombinhos, com caldo de vaca, de carneiro ou de galinha, e
um pouco de agraço ou caldo de limão. Cubram tudo com a mesma massa do
pastelão, e levem ao forno brando.
PASTÉIS LEPALDADOS
Façam uma massa de farinha
de trigo, água e sal, na consistência da massa de pão. Depois de bem sovada,
abram-na em folhas redondas, e bem finas, mais ou menos de dois palmos de
diâmetro, sem deixar que se quebrem. Tomem então manteiga derretida e untem a
folha de massa de um só lado, enrolando-a bem apertada. E assim se procede com
toda a massa. Em seguida cortem essa massa enrolada, em fatias de dois dedos de
grossura, deitando-as num tabuleiro. Façam então um buraco com os dedos, no
meio de cada um desses enrolados de massa, recheando-os com carne picadinha,
muito bem temperada, e não muito seca. Cubram com outro enrolado de massa, achatado
no meio, e levem ao forno, o suficiente para assar.
GALINHA ALARDADA
Limpe e tempere uma
galinha. Em seguida, com auxílio de linha e agulha, envolva-se toda a galinha
em fatias de toucinho de fumeiro, bem fininhas. Leva-se ao forno brando.
GALINHA COZIDA E ENSOPADA
Levem a cozer uma galinha
temperada com sal, salsa, coentro, hortelã, cebola e um pouco de vinagre. Assim
que estiver cozida, retirem-na do seu caldo, o qual é coado e posto a ferver em
outra panela. Nesse caldo ponham meia dúzia de ovos batidos, gemas e claras, ao
qual se misturam ainda 4 gemas cozidas. Batam tudo muito bem, para que adquira
uma certa liga. Ponham a galinha numa travessa funda, sobre fatias de pão, e derramem
por cima o caldo de ovos. Coloquem ovos cozidos em volta, e polvilhem com
canela.
COELHO
Assa-se um coelho
temperado só com sal, e em seguida cortem-no em pequenos pedaços. Faz-se então
um refogado com manteiga, cebola batida, vinagre, cravo-da-índia, açafrão,
pimenta-do-reino e gengibre. Ponham em seguida os pedaços do coelho dentro do
refogado, e deixem levantar a fervura. Sirva-se sobre fatias de pão.
OUTRA RECEITA DE GALINHA
MOURISCA
Façam em pedaços uma
galinha bem gorda, e levem-na ao fogo brando, com duas colheres de sopa de
gordura, algumas fatias de toucinho, bastante coentro, um punhadinho de salsa,
umas folhinhas de hortelã, sal e uma cebola bem grande. Abafem-na e deixem-na
dourar, mexendo-a de vez em quando. Em seguida cubram essa galinha com água, e
assim que levante fervura acabem de temperá-la com sal, vinagre,
cravo-da-índia, açafrão, pimenta-do-reino e gengibre. Logo que a galinha esteja
cozida, derramem dentro 4 gemas batidas. Tomem uma travessa funda, forrada com
fatias de pão e derramem por cima a galinha.
MODO DE PREPARAR O LÁPARO (filhote
macho de coelho)
Tomem um láparo mal assado
e partam-no em pedaços. À parte, numa tigela, batam alguns ovos, claras e gemas
tudo junto, e deitem-lhes açúcar que adoce. Ponham a carne numa travessa,
derramando em cima os ovos batidos. Do mesmo modo se prepara a galinha esbarada,
só que esta é servida sobre fatias de pão passadas no açúcar, tudo coberto com
açúcar e canela, e borrifado com água-de-flor, no momento de ir à mesa.
ALMÔNDEGAS
Tomem carne de porco ou de
carneiro muito gordo, sem ossos, e piquem-na bem miudinha, temperando-a com sal,
cravo, açafrão e gengibre. Façam as bolas de carne, recheiem-nas com uma gema
cozida, passando-as em seguida pela farinha de trigo. Numa panela com manteiga bem quente ou, se preferirem, manteiga
e caldo gordo de carneiro, lancem um amarrado de cheiro-verde, e coloquem ali
as almôndegas. Tampem a panela e tenham o cuidado de mexer as almôndegas de vez
em quando, evitando que se partam. Sirvam com bastante molho. Se este for
pouco, ajuntem às almôndegas o caldo de outras panelas.
TIGELADA DE COELHO
Temperem um coelho a gosto
e levem-no a cozer com pedaços de toucinho. Quando estiver bem macio, tirem-no
fora, piquem-no e partam o toucinho em talhadas bem finas. Arrumem tudo dentro
de uma tigela de barro, entremeando o coelho com o toucinho. Ajuntem
cravo-da-índia e uma pitada de açafrão, e cubram com salsa, coentro, hortelã e
cebola, tudo bem batidinha. Então derramem dentro o caldo em que o coelho foi
cozido e levem a tigela ao fogo. Assim que levantar fervura tirem a tigela do
fogo, derramem em cima meia dúzia de ovos batidos, claras e gemas tudo junto, e
levem ao forno para corar.
TIGELADA DE PERDIZ (outra
receita)
Cozinha-se uma perdiz com
uma posta de toucinho, sal e cheiro-verde, tendo o cuidado de não lhe pôr
vinagre. Em seguida cortem-na em pedaços, como para ir à mesa. Faz-se uma
calda, não muito grossa, com 450 gramas de açúcar e algumas gotas de água-de-flor.
Nessa calda lançam-se fatias de pão duro bem finas, tirando-se a vasilha do
fogo, assim que levantar fervura, e voltando com ela ao fogo logo após, até que
a calda esteja bem grossa. Batam uma dúzia de ovos, claras separadas,
ajuntando-lhe açúcar que adoce. Nesses ovos misturam-se os pedaços de perdiz. Forrem
uma terrina com as fatias de pão que estiverem na calda, derramando sobre elas
a perdiz com os ovos doces.
PRATOS COM OVOS
OVOS MEXIDOS
Faz-se uma calda rala, com
um pouco de água-de-flor, levando-se o tacho ao fogo, para que ferva
lentamente. Em seguida colocam-se nessa calda fatias de pão dormido, e assim
que estiverem cozidas, retirem-nas e deitem-nas numa travessa. Batam uma dúzia
de ovos, e derramem-na na calda. Assim que levantar fervura, comecem a mexer
tudo lentamente, sempre para o mesmo lado, a fim de que os ovos não se
desfaçam. Depois de cozidos retirem os ovos com uma escumadeira, colocando-os
sobre as fatias de pão. Sirvam polvilhados com açúcar e canela.
CANUDOS
Façam uma massa como de
pastel, que leve um pouco de açúcar e uma colher de manteiga. Depois de muito
bem sovada estendam-na com um rolo, sobre a mesa. Façam os canudos do tamanho
que desejarem, e fritem-nos ligeiramente na manteiga; recheiem-nos então com o
mesmo doce de ovos da receita precedente, passando-os depois por uma calda
grossa. Deixem-nos secar numa peneira, e a seguir envolvam-nos em açúcar e canela.
OVOS DE LAÇOS
Batam muito bem dez gemas,
duas claras e duas colheres de farinha de trigo. Peguem uma caçarola pequena e
não muito rasa, e levem-na ao fogo, com manteiga que dê até o meio. Quando a
manteiga estiver bem quente, ponham a massa num saco de confeitar, com um bico
bem fino, e espremam-na na manteiga fervente, dando-lhe a forma de laços. Assim
que a massa estiver dourada, retirem-na da panela e ponham-na a escorrer numa
peneira. Sirvam polvilhados com açúcar e canela.
PASTÉIS DE MARMELOS
Façam uma massa de pastel
bem sovada, e deixem-na descansar. Tomem marmelos, descasquem-nos e façam-nos
em quartos. Cozinhem alguns ovos, até ficarem bem duros, tomem-lhes só as gemas
e partam-nas ao meio. Passem uma fervura em alguns tutanos de vaca, e
cortem-nos em fatias bem finas. Abram então a massa, bem delgada, e vão-se
fazendo os pastéis, colocando-se como recheio, em camadas, açúcar com canela,
um quarto de marmelo, meia gema cozida e um pouco de tutano, terminando por uma
camada de açúcar e canela, um pouquinho de manteiga e uma pitada de sal. Leva-se
ao forno regular: quando os pastéis estiverem meio assados, passa-se um pouco
de manteiga sobre eles, borrifando-os em seguida com água-de-flor ou
água-de-rosas. Não deixem tostar muito.
MANJARES DE LEITE
MANJAR BRANCO
Cozinha-se demoradamente
um peito de galinha em água pura, de tal modo que se possa desfiar com
facilidade. Em seguida coloque esse peito desfiado numa vasilha com água fria. Tomem-se
450 gramas de arroz bem lavado e seco com um pano, pisem-no muito bem, e
coem-no numa peneira bem fina. Num tacho deita-se 1,4 litro de leite, adoçando-o
com 200 gramas de açúcar. A esse leite ajuntam-se então o peito da galinha, um
pouco socado, a farinha de arroz e sal a gosto. Leva-se tudo ao fogo brando, mexendo
sem parar. Quando o creme estiver quase cozido, é bom prová-lo, para ver se
necessita de mais açúcar. Depois de pronto tira-se o tacho do fogo,
continuando-se a bater o creme por mais alguns minutos. Sirva-se em tigelinhas,
com açúcar por cima.
PASTÉIS DE LEITE
Leve-se ao fogo, a ferver,
um tacho com 230 gramas de água. Assim que levantar fervura deitem-se nessa
água 230 gramas de leite e 230 de açúcar. Em seguida bate-se uma dúzia de ovos,
claras e gemas separadas, adicionando-lhe um pouquinho de farinha de trigo, só
para dar liga. Dissolva-se essa mistura num pouco de leite, de modo que fique
uma pasta. Derrame-se então tudo naquela calda, que deve estar fervendo. Tira-se
do fogo logo que cozinhe. Faz-se uma massa para pastel, que leve açúcar, duas
gemas e um pouco de manteiga. Depois de bem sovada fazem-se os pastéis em formas
apropriadas e levam-se ao forno, que fiquem não muito assados. Retiram-se logo
as formas de dentro dos pastéis, recheando-se estes com o doce de ovos. Em
seguida os pastéis são besuntados de manteiga, indo novamente ao forno, para
acabar de assar. Esta receita dá para 6 pastelões.
LEITE COZIDO
É a mesma receita do
recheio precedente, só que não leva açúcar; e além disso acrescenta-se um pouco
mais de farinha, para que fique mais grosso.
TIGELADA DE LEITE
Batam muito bem quatro
ovos com cinco colheres de açúcar, cinco de farinha de trigo, e uma pitada de
sal. Em seguida untem umas forminhas de barro com bastante manteiga, e coloquem
nelas o creme, levando ao forno para assar, com um pouquinho de manteiga por
cima.
BEILHÓS DE ARROZ
Cozinhem um pouco de arroz
com leite, açúcar e uma pitada de sal, e ponham-no a esfriar. Batam dois ovos
separadamente, adicionem-lhes uma colher de farinha de trigo, misturando-os
então ao arroz já frio. Levem ao fogo uma frigideira com manteiga e, quando
esta estiver bem quente, deitem-lhe a massa às colheradas. Se os bocados se
espalharem muito pela frigideira, enrolem-nos depois na farinha de trigo. Numa
panela que já está no fogo, com calda bem grossa, vão-se deitando os bolinhos,
que depois são postos a escorrer, numa peneira. Servem-se polvilhados com
açúcar e canela. Da mesma maneira se fazem os beilhós de manjar branco, só que
este deverá ser mais cozido, usando-se farinha de arroz, em lugar de farinha de
trigo.
TIGELADAS DE LEITE À D.
ISABEL DE VILHENA
Batam junto trinta ovos.
Em seguida, numa parte desses ovos batidos desfaçam doze colheres de farinha de
trigo, ajuntando a essa massa o restante dos ovos, batendo tudo muito bem. Tomem
então 12 tigelas e ponham nelas essa massa de farinha e ovos, acabando-as de
encher com leite cozido. Levem tudo novamente a um alguidar, adicionando 450
gramas de açúcar e uma pitada de sal. Batam muito bem essa mistura. Em seguida
untem, com bastante manteiga derretida, as tigelinhas de barro, e encham-nas
com a massa já preparada, levando-as logo após a assar. Se diminuírem ao cozer,
pode-se tornar a enchê-las. Para saber se a massa está cozida, espetasse-lhe um
palito.
ALMOJÁVENAS DE D. ISABEL
DE VILHENA
Tomem 3 partes de queijo,
não muito fresco, e amassem-nas muito bem, misturando-lhes em seguida uma parte
de farinha de trigo e três ovos inteiros; se o queijo for muito mole, misturem
a ele as três gemas e apenas uma clara. Mexam e amassem tudo junto, de modo a
formar uma pasta homogênea. Façam então uma massa de pastel com farinha bem
fina, um pouco de açúcar, manteiga e algumas gotas de água-de-flor. Depois de
bem sovada, deixem esta massa descansar um pouco, abrindo-a depois com um rolo,
em folhas bem delgadas. Cortem a massa com uma carretilha, dando-lhe feitio
arredondado. Com os dedos levantem as pontas da massa, que fique como uma
pequena torta. Em seguida arrumem o recheio de queijo nessas tortinhas, que são
levadas a fritar em fogo brando, e em bastante manteiga, ou banha bem quente.
Tenham o cuidado de não deixar cair a manteiga ou banha dentro do recheio. Assim
que estiverem douradas tirem as almojávenas do fogo. Finalmente façam uma calda
em ponto não muito alto e, sem deixar que esta ferva, passem por ela as tortinhas.
Deixem-nas escorrer numa peneira e sirvam-nas polvilhadas com açúcar.
RECEITAS DE CONSERVAS
COMPOTA DE DIACIDRÃO
Escolham algumas cidras
bonitas e perfeitas, que já estejam maduras, e partam-nas em quatro ou oito
pedaços, deitando-os imediatamente numa vasilha com água fria. Num tacho ao
fogo tenham uma calda bem rala, na qual se arrumam os pedaços de cidra bem
apertados, de maneira a ficarem cobertos pela calda. Cubram tudo com um pano ou
uma tampa qualquer, e deixem cozer, até que passe pela cidra, com facilidade,
um alfinete grosso. Se a calda minguar, acabem de encher o tacho com outra
fervendo, e, se ficar escura, passem a cidra para outra calda, também fervente.
Depois de bem cozida, tirem a cidra da calda, colocando-a num recipiente com
água fria. Repitam essa operação durante quatro dias, três vezes ao dia, isto
é, de manhã, de tarde e à noite. No fim desses quatro dias arrumem os pedaços
de cidra num tacho, encham-no com água fervendo, cubram-no com um pano e deixem
a cidra de infusão. Façam uma outra calda rala, e depois de escorrer a cidra de
sua água, deitem-na naquela calda, que deverá estar fervendo. Por quinze dias
ande a cidra nessa calda, que deverá levar uma fervura cada dia, e cada vez
mais forte. No fim desse tempo a compota estará pronta. Se desejarem-na mais
bonita, tirem-na então dessa calda e deitem-na em outra, que levará algumas
gotas de água-de-flor e de almíscar. Levem tudo novamente ao fogo, até que a
calda fique espelhada. É necessário trazer a fruta bem coberta de calda, para
não azedar. Para evitar que tal aconteça, deem uma fervura na compota, à menor
suspeita de deterioração. Se desejarem terminar a compota em oito dias, basta
fervê-la duas vezes ao dia. Com qualquer outra fruta usem do mesmo processo. Desejando-se
fervê-la de dois em dois dias, deve-se clarificar a calda com clara de ovo,
coá-la e derramá-la fervente sobre a fruta. O aparecimento de umas manchas brancas
mostra que a fruta começa a azedar. Neste caso retirem a fruta, levando só a
calda para ferver, clarificando-a novamente com clara de ovo. Depois de
clarificada derramem de novo a calda sobre a fruta. Essa calda terá sempre o
ponto espelhado, e deverá cobrir totalmente a fruta.
CASQUINHAS
Tomem cidras verdes,
partam-nas em quatro ou oito partes e tirem-lhe todo o miolo, que fiquem bem
fininhas, colocando-as em seguida numa vasilha com água fria. A seguir deem uma
pequena fervura nas cidras, com um pouco de sal na água, voltando-as em seguida
para água fria. Deixem as cascas de infusão durante três dias, trocando-lhes a
água duas vezes ao dia. No fim desse tempo levem as cidras a cozer, até que
possam ser perfuradas facilmente com um alfinete. Façam uma calda e coloquem
dentro as fatias de cidra, de maneira que estas fiquem bem cobertas. Durante
nove dias permanecem as fatias nessa calda, e cada dia levam uma fervura. No
último, acrescentem algumas gotas de água-de-flor à calda, levando a compota
mais uma vez ao fogo, para uma última fervura.
COMPOTA DE PÊSSEGO
Escolham pêssegos de vez,
e os mais duros que se acharem, levando-os ao fogo, em pequenas quantidades, dentro
de um tacho com água bem quente, e um pouco de cinza peneirada. Assim que
levantar fervura tirem os pêssegos, colocando-os em seguida numa vasilha com
água fria. Os que não perderem o pelo voltam ao fogo para mais uma fervura na
água com cinza, indo logo depois para a água fria. Os pêssegos devem ser
passados ligeiramente pela água fervente, a fim de evitar que se cozam. Em
seguida passem-nos por água fria umas quatro ou cinco vezes, deixando-os descansar
um pouco em cada uma delas. Na última deem-lhes outra fervura, voltando a fruta
para outra água fria, que será trocada duas horas depois. Os pêssegos ficarão
em água fria durante dois dias, e essa água será trocada cinco vezes ao dia. E
a última levará sempre uma fervura, com os pêssegos dentro. Façam então uma
calda em ponto de fio, furem os pêssegos ao comprido, ponham-nos a seguir
dentro da calda, e deixem-nos a cozinhar até o ponto desejado. Depois que a
compota estiver pronta, acrescentem-lhe algumas gotas de água-de-flor. Ponham
tudo dentro do tacho, e durante uns três ou quatro dias deem uma ligeira
fervura na calda, que será derramada nos pêssegos, quando estiver morna.
DOCE DE LIMÃO
Separem alguns limões de
casca bem grossa, deem-lhes um pique numa das pontas e levem-nos a cozer em
água com um pouco de cinza. Para saber se estão cozidos, espetem-lhes um
alfinete. Coloquem os limões em água fria, limpando-os por dentro ligeiramente,
sem abri-los de todo, e jogando-os depois em outra água limpa. Deixem os limões
durante três dias em infusão, trocando a água três vezes ao dia. Cada dia deem-lhes
uma fervura, voltando-os sempre para a água fria. No fim desses três dias
acabem de limpar os limões, e levem-nos ao fogo para cozerem muito bem, a fim
de não encruarem. Por fim façam uma calda e deitem-na fervente sobre os limões,
em quantidade bastante para cobri-los. Deixem a fruta nessa calda durante quinze
dias, e diariamente deem uma fervura só na calda. Se esta engrossar muito,
antes dos quinze dias, levem-na a ferver com os limões e ajuntem-lhe um pouco
de água-de-flor.
COMPOTA DE PÊRAS OU
CODORNOS
Separem algumas peras ou codornas
bem bonitas, que não estejam maduros de todo e sem manchas ou ferrugem, e deem-lhes
uns cortes oitavados. À medida que as frutas forem recebendo esses cortes, vão
sendo lançadas em água fria. Num tacho ao fogo
tenham água fervente, na qual se lançarão as frutas para cozer, tendo antes o
cuidado de atravessá-las com um estilete, de ponta a ponta, umas três vezes.
Para saber se as frutas estão cozidas, experimentem atravessá-las com um
alfinete. Se por acaso a água da cozedura ficar vermelha, tirem as frutas, e coloquem-nas
noutro tacho com água fervente, até acabarem de cozer. Em seguida escorram toda
a água e deitem as peras ou codornas numa calda rala, que já estará fervendo.
Deixem ferver tudo bastante tempo, tirem do fogo e ponham a esfriar. Durante
quinze dias fervam essa calda separadamente, derramando-fervente sobre as
frutas. É bom, de dois em dois dias, clarificar essa calda. No décimo quinto
dia deitem na calda algumas gotas de água-de-flor e de almíscar. A compota
ficará mais bonita se trocarem a calda em que foi feita por uma nova.
PERINHAS DORMIDEIRAS
Tomem umas cinco ou seis
dúzias de peras, não muito maduras nem muito verdes, e deem-lhes uns cortes
oitavados, lançando-as imediatamente numa vasilha com água fria. Em seguida
ponham água a ferver num tacho, e deitem ali as peras para cozer, perfurando-as
antes ao comprido, duas vezes. Para saber se estão cozidas, espetem-nas com um
alfinete. Se caírem, estão boas. Tirem então as peras da água, e coloquem-nas
em uma peneira, abafando-as com panos de cozinha. A seguir façam uma calda em
ponto regular, e lancem-na morna sobre as peras, que já estarão arrumadas num tacho;
a calda deve cobrir as peras, e o tacho há de ficar bem abafado. Durante oito
dias seguidos deem uma fervura na calda, cada dia mais forte, e derramem-na
morna sobre as peras que ficaram no tacho. Usem desse processo por mais sete
dias, dia sim, dia não. Se no fim desse tempo a compota não estiver no ponto
desejado, continuem fervendo a calda e derramando-a morna sobre as peras, por
mais dois dias.
Finalmente levem tudo
junto ao fogo, peras e calda, acrescentem um pouco de água-de-flor, e deixem
ferver regularmente por uma meia hora. Separem novamente as peras de sua calda,
a qual, após ser coada, voltará novamente para junto das frutas. Enquanto se
fizer a compota, a calda será coada diariamente, antes de se juntar às frutas. E
será conveniente clarificar essa calda de dois em dois dias. Se durante o
fabrico da compota aparecerem nódoas brancas na calda, levem tudo ao fogo, para
uma fervura. Para que as frutas fiquem mais bonitas, cada dia adicionasse-lhes
uma calda nova.
DOCE DE ABÓBORA
Arranjem uma abóbora bem dura,
e cortem-na em pedaços, do tamanho e feitio que desejarem, descansando-os e
limpando muito bem por dentro. Em seguida encham um alguidar com água fria, e
derramem dentro uma mão cheia de sal. Antes de mexer o sal que está no fundo,
joguem na água um ovo. Quando este vier à tona, que aparecer dele só um pedacinho
do tamanho de uma moeda de dez centavos, dissolvam o sal com uma colher de pau.
Coem essa salmoura e arrumem-na numa vasilha, com os pedaços da abóbora. Depois
de vinte e quatro horas de infusão, tirem os pedaços da abóbora e coloquem-nos
imediatamente em água fria, onde permanecerão três dias, com água trocada de
cinco a seis vezes ao dia. Depois desse período de infusão na água fria, provem
a abóbora. Se ela ainda estiver com gosto de sal, tornem a deitá-la na água por
mais três dias, mudem-lhe a água como da vez anterior, deem-lhes uma fervura
cada dia, e voltem a abóbora novamente para a água fria. No terceiro dia acabem
de cozê-la completamente, até que passe um alfinete através dos pedaços. Tirem
a abóbora da água e deixem-na escorrer muito bem. A seguir arrumem as fatias
numa vasilha funda, cobrindo-as com uma calda, mais para rala. Durante quinze
dias ficarão os pedaços de abóbora na calda, mas cada dia levar-se-á só a calda
ao fogo para ferver, ficando a abóbora, durante esse tempo, abafada numa vasilha
com água quente. Na hora de receber a calda escorram muito bem as fatias de
abóbora da água quente em que estiveram abafadas. Durante o tempo em que se
prepara esse doce deve-se clarificar a calda com clara de ovo, de dois em dois
dias, e coá-la diariamente, antes de ajuntá-la à compota. Passados quinze dias
o doce estará pronto. E ficará mais bonito, se lhe puserem uma calda nova, no
último dia.
TALOS DE ALFACE
Escolham talos de alface
bem compridos e duros, e limpem-nos cuidadosamente, tirando-lhes todas as
fibras. Depois de todos bem limpos, tomem os mais grossos e deitem-nos numa
vasilha com água fria. Ponham no fogo um tacho com água, e quando esta ferver,
lancem dentro os talos, deixando-os cozer, até que sejam atravessados
facilmente com um alfinete. Em seguida escorram os talos da água em que foram
cozidos, coloquem-nos num tacho e deitem sobre eles uma calda fervente. Durante
quinze dias fervam essa calda separadamente, e derramem-na, ainda fervendo,
sobre os talos. No fim desse tempo a compota estará pronta.
DIACIDRÃO CRISTALIZADO
Escolham cidras bem
bonitas e perfeitas, partam-nas em 4 partes, e deem alguns cortes oitavados nas
fatias. Em seguida passem a fruta por duas águas bem quentes, enxuguem-na com
um pano e ponham-na numa peneira, a secar ao sol. Façam uma calda, não muito
grossa, e, quando esta estiver fervendo, deitem nela as fatias de cidra. Deixem
o tacho em fogo brando, até que a calda atinja o ponto de bala. Aí, tirem o
tacho do fogo, ponham de lado os pedaços da cidra, e batam a calda, até
engrossar um pouco. Voltem a cidra para essa calda grossa, e tirem-na
rapidamente, deixando-a esfriar fora da calda. Se a fruta pegar na mão, depois
de fria, deverá voltar novamente ao fogo, até engrossar o ponto da calda. Depois
de prontas, coloquem as fatias a escorrer numa peneira, deixando-as secar fora
do sol e do vento.
DOCE DE FLOR DE LARANJEIRA
Separem flores de
laranjeira, bem novas e sadias, e ponham-nas de infusão em água fria, durante
vinte e quatro horas. A seguir escoram-lhes toda a água, e ponham as flores num
alguidar, de modo que fiquem bem apertadas, e machuquem-nas lentamente. Tirem as
flores do alguidar e coloquem-nas em outra vasilha com água fria. Logo que
vierem à tona, ponham-nas de novo no alguidar e tornem a machucá-las de leve.
Retirem então as flores do alguidar, levando-as para um tacho com água morna,
onde ficarão abafadas com um pano. Depois de algum tempo escorram essa água,
passem as flores por água fria, e cubram-nas novamente com outra morna.
Continuem trocando a água, até que as flores percam totalmente sua acidez. A
seguir coloquem as flores numa peneira e deixem-nas secar e esfriar, sempre cobertas
com um pano. Façam uma calda de açúcar e acrescentem-lhe uma quantidade de mel
de abelha igual a essa calda. Deixem ferver muito bem essa mistura, até que
adquira o ponto de mel. Num outro tacho, coloquem seis medidas de calda e três
de flor de laranjeira, levando o tacho ao fogo brando e mexendo sempre para o
mesmo lado, bem devagar, para que as flores não se desfaçam. Ao mesmo tempo, com
uma colher, vão derramando sobre elas um pouco de calda. Durante o cozimento
tirem o tacho do fogo umas duas ou três vezes, repondo-o assim que a calda for
ficando morna. Para saber se as flores estão cozidas, provem-nas nos dentes. Se
não rangerem, estarão boas. Se as flores ficarem muito secas, derramem-lhes mais
um pouco de calda de mel e açúcar, antes de cozerem completamente. E, se depois
de cozidas, estiverem com muita calda, retirem-lhes um pouco desta. Tudo
pronto, deitem o doce numa terrina de louça, e deixem-no esfriar, guardando-o
depois em um lugar fresco.
MARMELADA DE XIMENES
Façam uma calda com dois
quilos de açúcar. Em seguida pesem dois quilos de marmelo, já descascados e
limpos, e ponham-nos na calda, que já estará no fogo. Quando as frutas estiverem
cozidas, tirem-nas da calda, amassem-nas, passando-as depois por uma peneira
fina. Enquanto isso a calda ficará no fogo, até atingir o ponto de bala. Então,
tirem a calda do fogo e adicionem-lhe o marmelo, mexendo tudo durante bastante
tempo. A seguir, voltem com o tacho para o fogo brando, continuando a mexer o
doce numa só direção, e não em movimentos circulares para não açucarar. Logo
que a massa largar do tacho, estará cozida. E, para verificarem melhor se a
marmelada está no ponto, tomem um bocado numa colher: se criar uma ligeira
crosta por cima, de modo que o dedo não se suje ao tocá-la, estará boa. Se,
durante o tempo em que cozerem os marmelos, a calda ficar vermelha, troquem-na
por outra. E se desejarem a marmelada vermelha, levem o tacho ao fogo forte.
BOCADOS
Fazem-se os bocados com a
mesma marmelada branca da receita anterior, só que menos cozida que aquela. Depois
de pronta, coloca-se a marmelada numa terrina, e no dia seguinte fazem-se os
bocados. E, tanto na receita anterior, como nesta, podem-se acrescentar uns 50 gramas
de água-de-flor ou almiscarada.
PARA CLARIFICAR AÇÚCAR
Ponham água num tacho, não
em grande quantidade, e lancem dentro clara de ovo em ponto de neve. Em seguida
deitem o açúcar no tacho, e levem tudo ao fogo, para ferver, sem mexer. Quando
a clara absorver toda a impureza, tirem o tacho do fogo, retirem a clara com
uma escumadeira e coem a calda. Depois levem de novo o tacho ao fogo, até a calda
atingir o ponto de açúcar. Se não ficar completamente limpo, levem novamente o
açúcar ao fogo, com um pouco d’água e outra clara em ponto de neve. O açúcar
estará clarificado quando a espuma sair bem alva. Para este processo não há
quantidade certa de água. Naturalmente a calda deverá ser grossa, para atingir
o ponto de açucarar mais rápido. Mas para 450 gramas de açúcar usam-se duas
claras em ponto de neve.
COMPOTA DE MARMELO
Escolham alguns marmelos
alongados, do tipo Pêra, bem compridos e lisos, podendo, inclusive, ser
marmelos silvestres. Descasquem-nos, partam-nos em quartos, dando-lhes a seguir
uns cortes oitavados. Tenham um tacho ao fogo com água fervente, e ponham ali
os marmelos, para uma fervura muito rápida. Depois tirem os marmelos dessa água,
e coloquem-nos em outra vasilha com água fria. Em água fria ficarão dois dias,
trocando-lhes a água três vezes ao dia, e cada dia dando-lhes uma ligeira
fervura. A última fervura deverá cozer os marmelos completamente, até que sejam
atravessados com um alfinete, com facilidade. Tirem os pedaços dessa última
fervura, coloquem-nos numa vasilha funda e cubram-nos com água quente. Depois
escorram muito bem essa água e coloquem sobre a fruta uma calda morna, em ponto
de fio. Durante quinze dias levem só a calda ao fogo, para uma ligeira fervura,
derramando-a sempre morna sobre os marmelos. No derradeiro dia levem tudo junto
ao fogo, deixem ferver brandamente, tirem o tacho do fogo e deitem na compota
um pouco de água-de-flor.
PERADA
Cozinhem com casca 1 ½
quilo de peras, passando-as depois por uma peneira. A seguir façam uma calda em
ponto de fio (com um quilo de açúcar), misturem a massa à calda e deixem tomar
o ponto. Se quiserem o doce em ponto de compoteira, deixem-no cozer um pouco
menos, devendo tirá-lo do fogo um pouco mais mole. Essa mesma receita pode ser
feita com partes iguais de marmelos e peras.
MARMELADA DE D. JOANA
Para dois quilos de marmelo,
usem 2 ½ quilos de açúcar. Cozinhem os marmelos inteiros, só na água,
abafando-os bem. A seguir descasquem-nos, cortem-nos em pedaços, passando-os
então por uma peneira fina. Pode-se também descascar os marmelos antes de
levá-los ao fogo e, nesse caso, serão cozidos com um pouco de açúcar e passados
depois pela peneira. Façam uma calda em ponto de espelho, adicionem-lhe um
pouco de água-de-flor, deitem dentro os marmelos passados pela peneira e
misturem tudo muito bem, fora do fogo. Levem novamente o tacho ao fogo, e mexam
a marmelada, até que se desapegue do fundo.
ALFÉLOAS
Façam uma calda com um
quilo de açúcar e adicionem-lhe algumas gotas de água-de-flor. Deixem o tacho
no fogo, até que a calda atinja o ponto de bala. Para conhecer esse ponto tomem
um bastãozinho e introduzam-no na água fria, depois na calda, e novamente na
água fria. Se o açúcar se desgarrar do bastãozinho, mantendo sua forma
cilíndrica, e cristalizar-se, o ponto já estará bom. Se se tornar difícil essa
prova, ponham um pouco de calda na água fria, façam com ela uma bolinha e
provem-na com os dentes. Se não agarrar, o ponto está bom. Tenham uma
pedra-mármore untada com óleo de flor ou de amêndoas, e derramem a calda
rapidamente ali, para não açucarar, e, muito depressa, deem-lhe umas três ou
quatro voltas com uma espátula ou colher de pau. Em seguida, com as duas mãos,
estiquem o açúcar o mais possível sobre o mármore, fazendo com ele o movimento
de abrir e fechar os braços, bem depressa. Depois de bem esticado, corram a mão
pelo açúcar, numa só direção e torçam-no um pouco dando-lhe forma de espiral. É
indispensável fazer tudo isso fora de corrente de ar, para que o açúcar não se
cristalize antes da operação terminada. Finalmente, estendam um pano úmido
sobre uma mesa, e deitem sobre ele a trança de açúcar. Assim que endurecer,
cortem-na em pedacinhos.
CONFEITOS
Torrem meio quilo de
erva-doce e limpem-na numa peneira. Em seguida façam uma calda com quatro
quilos de açúcar, levando o tacho ao fogo brando. Quando levantar fervura, que
forme pérolas na tona, deitem dentro a erva-doce torrada, conservando o tacho
sempre sobre brasas, para que a fervura seja a mais branda possível. Quando
estiver quase no ponto do confeito, adicionem um pouco de água-de-flor. É
importante nunca deixar o tacho sobre labaredas.
FARTES (farto, fartalejo
farte, fártel, fartem)
Tomem 7 litros de farinha
de trigo e dividam-no em 2 partes iguais. Façam uma presa em cada uma das
partes, deitando numa, 1 lata de litro de azeite, e na outra, água quente.
Amassem as duas partes separadas, de maneira que as massas fiquem muito bem sovadas,
e no ponto de enrolar. A seguir, com cada uma das massas façam biscoitos do
tamanho que desejarem, e levem ao fogo para assar, que não fiquem muito
corados. Depois moam os biscoitos, passando tudo por uma peneira bem fina. Então,
com 7 litros de farinha de trigo, 7 de farinha dos biscoitos e 7 de mel, façam
a massa, que servirá para envolver os fartes. Levem 7 litros de mel ao fogo, e
assim que levantar fervura ponham no tacho 15 gramas de pimenta-do-reino.
Deixem ferver um pouco mais, e comecem a pôr no mel fervente bocados da farinha
dos biscoitos, alternados com 450 gramas de erva-doce, também lançada aos
bocados. Continuem a pôr a farinha dos biscoitos, até formar uma pasta em ponto
de enrolar. Depois de a massa cozida, joguem no tacho 15 gramas de
cravo-da-índia e quinze gramas de gengibre, previamente torrados e peneirados,
misturando tudo muito bem. A massa estará cozida quando se desapegar das mãos
com facilidade. Então, depois de tirada do fogo, é ela colocada num recipiente,
onde ficará bem abafada, até ir esfriando. A seguir tomem a massa feita para
envolver os fartes, abram-na, e coloquem dentro o recheio e enrolem-na bem,
dando-lhe a forma de pastéis, que são levados ao forno a cozer, de maneira que
não se tostem. Os fartes feitos com açúcar levarão metade deste e metade de
mel, além de amêndoas ou pinhões, na quantidade desejada. Se usarem amêndoas,
coloquem-nas no tacho antes de a massa estar cozida; se usarem pinhões, estes
serão postos no recheio na hora de se fazerem os fartes, para cada farte dois
pinhões crus. Deve-se notar ainda que a massa do recheio feita com uma parte de
açúcar não será tão cozida como a feita só com mel, pois o mel derrama-se com facilidade
e o açúcar endurece. Quem fizer a calda com partes iguais de mel e açúcar, deve
adicionar à massa também as sobras das farinhas dos biscoitos que ficaram nas peneiras,
para obter uma boa liga.
BISCOITOS
Tomem 14 litros de farinha
de trigo e façam-lhe duas presas: numa coloquem 1 quilo de açúcar e um pouco de
água quente; na outra ponham meio litro de água-de-flor de laranja, um quarto
de litro de vinho branco e uma colher de sopa mal cheia de manteiga. Se
desejarem usem azeite doce, em lugar de manteiga. Misturem e amassem tudo
junto, até a massa ficar bem sovada, e bem macia. Façam os biscoitos e
levem-nos a assar em forno quente.
MAÇAPÃO
Façam uma calda grossa com
um quilo de açúcar e adicionem-lhe algumas gotas de água-de-flor. Quando a
calda atingir o ponto de bala mole, juntem-lhe 1 quilo de amêndoas, já antes
peladas e pisadas num gral. Para evitar que as amêndoas fiquem muito oleosas,
enquanto as pisarem vão molhando a mão do gral em água-de-flor. Logo que
misturarem as amêndoas com a calda, tirem
o tacho do fogo (mexendo sempre a mistura), acrescentem-lhe uma colher de sopa,
mal cheia, de farinha de trigo, e continuem a bater, para que a massa fique bem
fofa. Levem o tacho novamente ao fogo. Para saber o ponto de cozimento, tomem
um pouco na mão: se estiver bem ligada, a massa já estará cozida. Então tirem o
tacho do fogo e ponham a massa numa tigela de louça. Assim que a massa for
esfriando, com as mãos molhadas façam a maça pães, do feitio que desejarem.
PÃO-DE-LÓ
Com um quilo de açúcar
façam uma calda. Assim que esta espelhar, ajuntem-lhe algumas gotas de água-de-flor
e tirem-na do fogo. Pelem um quilo de amêndoas, soquem-nas um pouco, para que
fiquem apenas em pedacinhos, e misturem-nas na calda. Mexam tudo durante algum
tempo, e a seguir levem o tacho ao fogo brando, mexendo sempre numa só direção.
De vez em quando tirem o tacho do fogo, mexendo sempre, para que a massa fique
bem alva. Ela estará cozida assim que se desgarrar da vasilha. Despejem a massa
num tabuleiro molhado, ou untado com manteiga, alisando-a bem com uma colher de
pau, de modo que não fique muito grossa. Cortem-na em tabletes, na forma
desejada.
PESSEGADA
Cortem ao meio duas partes
de pêssego e uma de marmelo, e levem-nas a cozer, em separado. Depois que estiverem
cozidas, passem tudo por uma peneira fina. A seguir, ajuntem tanto açúcar
quanto for o peso da massa, e levem o tacho ao fogo brando. Deixem atingir o
ponto de marmelada, e coloquem o doce em caixetas.
GELÉIA DE MARMELO
Tomem partes iguais de
suco de marmelo e açúcar, e levem tudo ao fogo, com um pouco de água-de-flor. Deixem
o tacho em fogo brando, até a calda adquirir consistência de mel. Guardem em
potes de louça ou de vidro.

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